Nossa Senhora dos Ateus

Posted by:

Durante as noites de vício e as manhãs de ressaca, ela estava ao meu lado, silenciosa e triste. Sem que eu soubesse, cuidava de mim da mesma forma que cuidou de seu Filho (que, diga-se, nunca lhe deu esse trabalho.) Às vezes, no meio de uma bebedeira, eu vislumbrava o seu rosto de pureza em meio à multidão de fantasmas, mas afastava os pensamentos piedosos. Não acreditava em Deus, como poderia acreditar na Mãe? No entanto, ela dizia: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Sua vontade.”

Nas garras da angústia e da melancolia, na abjeta companhia do desespero, eu sentia uma enigmática presença consoladora. Era ela, sempre foi ela. Sem a menor explicação racional, a mão suave surgia para me resgatar no ninho das serpentes. Eu não era digno de ser tocado por ela, mas quem pode vencer o amor de Mãe? “A minha alma glorifica o Senhor.”

Perdi a fé. Mergulhei no vício. Menti. Traí. Feri. Matei. Dei as costas a quem mais me amava. Acreditei que a busca pelo prazer justificava tudo. Eu era “livre”. Eu não tinha “medo de ser feliz”. Eu iria transformar o mundo em um paraíso igualzinho ao da música “Imagine”, de John Lennon. Só que esse paraíso era o inferno. Só que eu era um escravo de mim mesmo. “Eis que teu pai e eu te procurávamos aflitos.”

Eu me lembro de um dia em que saí de casa sem falar com meu pai. Ele só queria conversar, estava preocupado comigo, com meus excessos. Daria tudo para voltar àquele momento e conversar com ele, ainda que por cinco minutos. Isso aconteceu faz 20 anos. Naquele momento, e no dia em entrei na clínica de abortos, é possível que ela quase tenha desistido de mim. Mas ela perseverou. Assim, por insistência da Mãe, o próprio Deus não me voltou as costas. “Fazei tudo que Ele vos disser.”

Então um dia, quando eu mergulhava numa escuridão parecida com a que envolveu Leon Trotsky e Walter Benjamin, embora fosse muito menor e mais burro que eles, vi-me diante de uma igreja incendiada. A visão das cinzas e das paredes calcinadas, o forte cheiro de fogo extinto e a destruição de um lugar sagrado me deram a plena certeza: ali estava a minha alma. Hoje sei quem me levou até aquela igreja: ela. Nossa Senhora dos Ateus, rogai por nós.

Por Paulo Briguet, jornalista da Folha de Londrina, escritor de vários livros.
0

Add a Comment